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Uma fábula política

Em uma terra verdejante vários animais viviam. Leões, raposas, ursos, tigres, cobras, carneiros e burros. No princípio havia comida e espaço para todos. Até que um dia cachorros a serviço de leões que vivam além-mar, lá chegaram. Como se tratava de cães viajados e espertos foram logo se dizendo donos do pedaço. Os animais da terra verdejante, inocentes e ingênuos aceitaram e logo foram dominados. Antes de ficarem o pé em definitivo naquela terra, para lá mandaram vários ratos. Acontece que em além-mar, o estoque de ossos estava escasso. Assim, o leão rei determinou que vários cachorros tomassem conta da terra.
Em pouco tempo mantilhas invadiam os portos. A convivência dos animais nativos com os estrangeiros, logo se tornou complicada. O leão que veio de além-mar era insaciável. Além do que, matinha uma um grande alcatéia sempre faminta.
Esse estado de coisas perdurou por muito tempo, mais de trezentos anos, até que, cansados de tanta exploração, os animais nativos resolveram se rebelar. Expulsaram os gordos bichos de além-mar e criaram seu próprio governo.

Por motivo que se desconhece, mas pode-se apontar para falta de vergonha (bicho é irracional e não tem vergonha. Faz suas necessidades na frente de qualquer pessoa, se tem vontade de transar, não tá nem aí, transa em qualquer lugar), o governo imaginado pelos bichos nativos nunca deu certo. Quando as coisas pareciam que iam andar, apareceu um marreco que vivia nas lagoas ao sul daquela terra verdejante, e começou a grasnar: vamos tomar o poder; vamos fazer todos felizes. Logo foi acompanhado por morcegos, gansos, pombos, rinocerontes. A confusão se formou. Paca junto com ovelhas querendo devorar onças; galinhas cacarejando em passeatas. Depois de certo tempo, o marreco conseguiu ser presidente dos bichos e fez escola. Logo, um macaco queira seu lugar. Houve muita resistência. Aproveitando-se da situação, uma toupeira, que também vivia nas terras ao sul, calculou que poderia chegar ao poder. Não deu certo, e teve que fugir disfarçada de borboleta. Cansados de tanta putaria, e prevendo que os morcegos estavam avançando no sentido de se instalarem no poder, os gorilas se enfureceram e resolveram acabar com a farra. Distribuíram porrada a três por quatro, e declararam: é nosso. Ninguém tasca. Insatisfeitos por perderem a boquinha, e a chance de criarem uma cópia de curral que existia em uma ilha na América central, onde os bichos têm direito a uma ração diária, e um pequeno local para procriarem, vários animais resolveram fazer uma guerra. Não deu nem para a saída. Em ordem alfabética os bichinhos foram convocados. Andorinhas, antas, asnos, bem-te-vis, bodes, camundongos, e por aí vai, até chegar à zebra. Ora, bicho é mesmo irracional. Como é que andorinha, asno vai se meter a brigar com gorilas? Quem não foi devorado, ganhou muita pancada e teve que ir zumbir em outros ares.
Duas décadas e meia, os gorilas já estavam cansados e resolveram que o melhor seria uma espécie de rodízio, ou seja, todos iriam escolher pelo voto qual o bicho deveria por certo tempo comandar os demais. Dois foram os candidatos. Uma velha raposa e uma águia. Ganhou a raposa, mas não chegou a tomar posse. Já estava velha, cansada e doente. Antes de assumir o poder morreu. Em seu lugar entrou uma cascavel. Destilou seu veneno, mas levou o mandato até o fim. Embevecidos com o negócio de votar, escolheram os animais um pavão para próximo presidente. O pavão vivia cercado de ratos, cobras, onças, panteras, tigres, só bicho feroz e voraz. O apetite deles era enorme. E menos de dois anos tiveram que ser expulsos. Para manter as aparências e não criarem mais confusão, os bichos deixaram no lugar do pavão, seu substituto, o pintassilgo. Foi difícil engolir aquele topete. Entre vários furos, pintassilgo deixou-se fotografar ao lado de uma galinha com tudo a mostra.
Bem, terminado o prazo, nova eleição, e adivinha quem ganhou? O grilo. Ele cricrilava em vários idiomas, e gostava muito de viajar. Aos trancos conseguiu ficar oito anos mandando em tudo. Vaidoso, adorava festas. Nova eleição se aproxima e já tendo sido governados por antas, marrecos, gorilas, pavões e grilos, resolvem os bichos darem uma chance ao jumento. Ora, o jumento é muito trabalhador, carregou muita carga, chegou a ter uma pata machucada. Disputou com a coruja e o coelho. Ganhou. Logo, logo a decepção dos bichos tornou-se imensa. Como o forte do jumento é a força, para administrar precisa de outros animais para ajudá-lo. Cercou-se de raposas, jararacas, papagaios, porcos, ratos, urubus, toupeiras. Tem até veados. Dizem que passa o dia relinchando, sem entender o uivar da velha e despelada raposa, o sibilar das espertas jararacas, o tartarear dos inúteis papagaios, o grunhir dos vorazes porcos, o guinchar das eternas ratazanas, o grasnar dos grandes urubus, e entendendo por vezes, o chiar das toupeiras.
Falta só vinte e meses para tentar de novo. Até lá é rezar para não ser devorado. Bicho reza? Deveria. Já que temos mesmo de ter um bicho no comando, um forte candidato para as próximas eleições é o macaco. Pelo menos se fala que ele adora uma sacanagem. Quem sabe se eleito não decreta a medida provisória 696969, (nada haver com a propaganda do inseticida). Se é para os bicho serem escalpelados, pelo menos que sejam com prazer.
Aurilio Nascimento
Rio, 24/04/05

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