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Vaidade, o móvel do crime

MÍDIA APRESSADA
Vaidade, o móvel do crime
Por Aurilio Nascimento em 17/10/2006
A dúvida é muito grande: devo ou não fazer algum comentário sobre injustiças praticadas por vaidades, interesses escusos? Sendo integrante de uma classe tripudiada pela imprensa e vista pela maioria da população como a responsável por tudo de ruim que acontece, não serei eu perseguido? Apontar erros escabrosos da Justiça coloca-me como alvo dos sacerdotes da sabedoria jurídica? Bem, não sei ao certo. A verdade é que, apesar destes questionamentos, resolvo ir em frente.
Muitos anos atrás, um assassinato foi cometido. Um suspeito foi indicado ao fim da tarde, horas após o encontro do cadáver. À meia-noite estava detido, com prisão preventiva decretada. Foi condenado a mais de 30 anos. A imprensa deu total apoio. Uma das maiores atrizes do Brasil fez manifestação na porta da delegacia exigindo a condenação do "acusado". Um dos mais famosos advogados do país conseguiu o mérito da condenação.
Solução fácil
Jamais se voltou a falar do caso. A vítima, famoso autor de teatro, era homossexual assumido. Sua rotina, conforme descrita por funcionários do prédio em que residia e amigos, era levar dezenas de "garotos de programa" a seu apartamento durante o dia. Era um "entra e sai de homem danado", declarou um dos porteiros do prédio. "Não sei como aquele cara agüentava", disse o empregado, colocando dúvidas quanto à resistência física à libidinagem por parte da vítima. Lá pelas duas, três da tarde, fazia um pedido a um restaurante nas proximidades. Almoçava, desligava o telefone, fechava as cortinas, ligava o ar-condicionado, e na penumbra desandava a escrever em sua velha máquina Olivetti, até altas horas da noite. No dia seguinte, chovendo ou fazendo sol, repetia tudo novamente.
Certo dia, não saiu do apartamento nem atendeu às ligações telefônicas. Os amigos preocupados foram ao apartamento e em minutos descobriram que estava morto a facadas: um empregado do edifício, com muito esforço, conseguiu ver a cena por uma janela. Por pouco não despencou no fosso. Quando a polícia chegou e entrou no apartamento, a terrível constatação: fora atingindo, nada mais nada menos, por 189 facadas. Isso mesmo: cento e oitenta e nove facadas, ou seja, uma centena, mais oito dezenas, mais nove. Considerando o tempo médio entre uma facada e a seguinte, de cerca de cinco segundos, dependendo do ódio do assassino, este teria levado mais ou menos 10 minutos furando a vítima.
No mesmo dia em que o corpo foi encontrado, dezenas de manifestantes, em sua maioria ligados ao meio artístico, postaram-se à frente da delegacia, exigindo justiça. Às 17h, um esperto policial deu a dica da solução do hediondo crime: meses atrás, disse ele, foi feito um registro aqui na delegacia, envolvendo um cidadão francês e um garoto de programa, ou seja, mais um registro de rotina no bairro mais famoso da cidade maravilhosa, Copacabana. O prostituto esfaqueara o francês em seu apartamento com uma faca de cozinha, mas a vítima sobreviveu: apenas uma lesão superficial.
Falsa eficiência
Considerando o modus operandi, conforme salientou o expert em investigação, não seria ele, o prostituto, o autor do crime? Teve então início uma corrida aos arquivos da DP, determinada pelo sherlock, e em poucos minutos toda a papelada estava em suas mãos. Imediatamente, acorreram à casa do prostituto, o qual jamais vira a vítima. Em menos de duas horas chegou arrastado à delegacia. Uma multidão de fotógrafos se debatia para pegar o melhor ângulo. Não só um potencial suspeito havia sido detido, como também provas importantes foram coletadas.
O suspeito apresentava lesões nas pernas. E não era só isso: uma mochila apreendida no apartamento dele mostrava manchas avermelhadas semelhantes a sangue. Da própria delegacia, e usufruindo de sua fama, o advogado ligou para um juiz, e conseguiu ser recebido na residência do magistrado. Retornou à delegacia já altas horas da noite com o decreto de prisão.
Toda esta eficiência teve por base o reconhecimento do prostituto por parte do porteiro, o qual, sob orientação do delegado, mudou seu depoimento. Antes havia descrito o assassino de uma forma, frisando que ele não tinha tatuagem. O prostituto detido mais parecia propaganda ambulante de tatuagens. No decorrer do inquérito, ficou provado que as tais manchas de sangue eram na verdade chocolate, e os ferimentos nas pernas advinham de um acidente de bicicleta: ao passar entre vários veículos guiando uma bicicleta, foi surpreendido pela abertura da porta de um carro.
Consciências em paz
A desatenta motorista, mesmo identificada, jamais foi ouvida. Na hora do crime, o prostituto estava num terreiro de macumba no bairro de Jacarepaguá. Havia dezenas de testemunhas. Nenhuma foi ouvida corretamente. Para felicidade geral, e não só dos artistas amigos da vítima, o prostituto foi condenado a dezenas de anos de cadeia. Durante semanas, a seção de cartas aos leitores de vários jornais recebeu uma enxurrada de pedidos de pena de morte para o acusado.
A única prova para a condenação: o reconhecimento do porteiro – feito da forma mais absurda possível. "Venha cá", disse o delegado ao amedrontado porteiro, levando-o até seu gabinete. "Olhe com atenção", disse o policial, apontando para o prostituto sentado à frente de sua mesa. O homem olhou com suspeitas, pensou, pensou e afinal disse: "Dá umas `parências´". Isto foi o reconhecimento. Uma repórter do jornal O Dia peitou o delegado, querendo detalhes do auto de reconhecimento. Foi devidamente escorraçada, e vingou-se no dia seguinte com uma nota chamando atenção para o fato. Mas não passou disso.
O prostituto foi mofar na cadeia. Ninguém nunca mais falou do caso. A famosa atriz quase ganhou um Oscar por um de seus trabalhos. É considerada um ícone, sem defeitos. O advogado tornou-se político. Nenhuma consciência dos que forçaram esta sentença doeu. Jamais procuraram saber se a condenação estava correta. O erro sobre o capitão Dreyfus foi corrigido. O erro sobre a Escola Base também foi parcialmente sanado. Tenho minhas dúvidas se o erro que relatei o será um dia.
Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa em 17/10/06

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