No final da década de 70, um jornal popular do Rio de Janeiro passou a noticiar a existência de um justiceiro atuando na baixada fluminense, o qual identificava-se como “Mão Branca”. Naquela época, a desova de corpos em locais ermos era rotina. “Mão Branca" ligava para as delegacias, noticiava o jornal, e informava onde estariam os corpos, dizia que a matança continuaria. O trôpego jornal explodiu em vendas. Era comum aglomerações em frentes as bancas de jornais adquirindo exemplares."Mão Branca" tornou-se onipresente, e começou a aparecer em outros estaados, como em Campina Grande, na Paraíba e em Manaus.
Nas conversas de botequins o principal assunto era “Mão Branca”. Quando o caixa do jornal já não cabia mais dinheiro, descobriu-se que era tudo mentira, com o único propósito de alavancar as vendas. “Mão Branca” nunca existiu. Foi uma criação do jornalista Carlos Lemos. O autor da descoberta foi outro jornalista, Caco Barcellos, o qual revelou a mentira em 1983, em uma reportagem para a revista IstoÉ.Em 2013, como em um estouro de boiada, milhares de pessoas correram para as agências da Caixa Econômica Federal, e das agências dos Correios em vários estados, tentando sacar valores do programa Bolsa Família, pois tiveram conhecimento de que o governo iria acabar com o programa. A crise logo se instalou, pois não havia como atender a todos. A informação sobre o fim do programa foi transmitida através de mensagens nos celulares, e de boca em boca. A PF entrou em ação, pois o governo da então presidente Dilma Rousseff, afirmava tratar-se de um ataque político. A conclusão da investigação foi de que a informação se espalhou de forma espontânea, e não houve orquestração.
“Após 18 anos, Bolsa família faz seu último pagamento nesta sexta-feira”. Esta manchete foi estampada em vários jornais, no início do governo Bolsonaro, circulou nas redes sociais, foi divulgada a exaustão, e criou um clima de revolta na população carente. A verdade é que o programa Bolsa Família apenas mudou de nome, e passou a ser chamado Auxílio Brasil.As notícias sobre “Mão branca” eram falsas; a informação que levou a corrida para sacar os benefícios nas agências da CEF e Correios foi um boato; e a manchete sobre o último pagamento do Bolsa Família, desinformação. Como distinguir? Notícia é o fato relatado por jornalista, em um órgão de imprensa oficial, desperta interesse do leitor, e publicada obedecendo a um padrão: título, corpo e conclusão. É desta forma que os manuais de jornalismo ensinam. Se o fato noticiado não existe, então é notícia falsa.
Boato é relato popular de um fato que não existe. É a famosa fofoca. Para que um boato ganhe relevância, deve despertar a curiosidade das pessoas, impossibilidade de se verificar, origem desconhecida, e se espalha com rapidez, e com objetivos diversos. Provocar pânico, simples brincadeira, prejudicar reputações, testar a reação social a um evento. Um funcionário de uma grande fábrica de refrigerantes, caiu e morreu triturado dentro de um tanque de preparo. Este é um exemplo de boato que nos anos 70 rodou o país de norte a sul.
A hoje chamada Era da Informação, a qual teve início na metade do século XX, também chamada de Terceira Revolução Industrial, sacudiu as bases do poder vigente. As novas tecnologias de informação e comunicação, interligam de forma rápida todos os cantos do planeta, criando assim um grande risco para os então poderosos, levou o pânico aos ditadores, e foi preciso reagir. Em alguns lugares proibiu-se simplesmente o uso da Internet ou estabeleceu-se um rígido controle. Nos demais lugares é necessário um avanço paulatino, criando-se limitações sob falsos pretextos. O termo “fakes News” é uma dessas criações para facilitar o controle da informação. Sem que ninguém tenha percebido, “notícia falsa”, “boato”, “desinformação”, foram resumidos a este termo estrangeiro, “fake News”. Toda a sociedade passou a repetir e escrever. A mistura impede qualquer análise sensata, lógica. A simples postagem de um cidadão comum, sem formação em jornalismo, caso não possua fundamento, pode ser classificada como “fake News”, e o pior, o autor pode ser preso. A sanha controladora avançou mais ainda: humoristas podem ser presos.
No famoso obra, “1984, O grande irmão”, de George Orwell, publicado em 1949, no qual se descreve as táticas de controle de um governo totalitário, o idioma então utilizado é rebatizado de novilíngua. A mudança da linguagem e redução da gramática, tinha como objetivo manipular e limitar o pensamento das pessoas. A palavra “notícia” é eliminada, e tudo que o governo divulga passa a ser “fato”. As palavras “ruim, péssimo, horrível”, também foram banidas da linguagem escrita e falada, substituídas por “bom” e “não bom”. Aos poucos, sem perceber, a sociedade vai sendo envolvida na trama, e aceita pacificamente usar termo como “fake news”, e assim tornam-se incapazes de fazer uma análise correta do que chegou ao seu conhecimento. Sem uso, sem esforço, o cérebro atrofia.
É o que exatamente estamos assistindo. Neologismos que englobam vários conceitos, pronome neutro, exclusão de termos em documentos oficiais, como pai e mãe, tudo faz parte do plano de dominação totalitária.

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