Pular para o conteúdo principal

Prisão em flagrante

Ao longo dos anos, policiais desenvolvem uma característica única, uma espécie de premonição, seguindo os preceitos da natureza de sobrevivência. Observando alguém ou uma situação, o inconsciente avisa: há algo errado. Foi desta forma que ao avistar um veículo, olhar para o motorista, a dupla de policiais decidiu fazer a abordagem. O nervosismo do motorista era visível. Logo após os procedimentos de praxe, exame de documentos, o policial solicitou que a mala do veículo fosse aberta. Quando o motorista levantou a tampa, o policial como um cão farejador, sentiu o odor acre, e olhando para as três grandes mochilas, indagou o que havia lá dentro.

- Perdi – disse o motorista. O policial sorriu, e examinando o conteúdo, constatou a existência de 45 quilos de cocaína, divididos pelas três mochilas. O motorista foi imediatamente algemado, colocado na viatura, e deu início a uma conversa.

- Meu chefe, desculpe, não quero ser abusado, tem uma conversa? – Perguntou. “Ter uma conversa”, era a forma de indagar se o policial aceitava negociar a prisão, ser pago para liberar.

O policial controlando sua euforia pela apreensão, já imaginado os elogios pela prisão e a grande quantidade de drogas, ficou em silêncio. O traficante insistiu, e fez novas perguntas.

- O senhor vai levar mesmo isso a frente? Será que vai compensar para o senhor? Não seria melhor a gente conversar? Vai ficar bom para mim e para os senhores. Pense no seu salário. Vale a pena o que os senhores ganham para me prender? Se esta viatura enguiçar, quem é que vai ter que correr atrás e providenciar o conserto? O senhor e seu colega. O senhor para trabalhar para essa sociedade que lhe recrimina, vai pedir ajuda a um dono de ferro-velho, que corta carro roubado, e em troca da ajuda vai fechar os olhos para o que ele faz, enquanto ganha muito dinheiro. Meu chefe, acredite, não vale a pena colocar sua vida por esta sociedade.

- O que você que conversar? Perguntou o policial.

- Veja, com todo respeito, não quero que o senhor me entenda mal, mas não vale a pena me prender. - Por quê? – Indagou o policial.

- Porque muito provavelmente vou ser solto na audiência de custódia. Se for condenado, pego no máximo cinco anos no aberto, pois sou primário. O meu prejuízo é apenas perder a mercadoria. Mas recupero rápido. Veja, o senhor vai ser chamado para depor, e o juiz vai perguntar qual motivo o senhor me abordou, se o senhor tinha certeza que eu estava carregando a droga. Vai dizer que houve abuso do senhor e de seu parceiro, pois invadiram minha propriedade sem um mandado, Claro que o senhor vai afirmar que suspeitou de mim, e aí o juiz vai perguntar de onde vem sua suspeita, e o senhor não vai saber dizer.

- É, tem sentido.

- Meu chefe, desculpe mais uma vez, mas tanto o senhor como seu parceiro têm que admitir que não vale a pena o seu trabalho, só se for para se dá bem. Quem é mais criminoso? Eu ou os políticos que roubam o dinheiro do povo, que deixam a saúde à míngua, que não pagam bons salários para vocês? Onde existe mais bandidos? Na favela, nos morros, ou em Brasília? E o que acontece com eles? Nada! Não lembra do cara com mais de 50 milhões em um apartamento? Tá livre. Lembra do dinheiro na cueca? Do André do rap? Dos milhões que foram desviados dos Correios, da Petrobrás, dos fundos de pensão? Então me fale: quem é mais criminoso eu ou eles?

- É, de certa forma você tem razão. Vejo que é bem informado.

- Hoje ficamos sabendo de tudo pela Internet.

- É verdade. – Diz o policial.

O traficante continua.

- E tem mais: hoje a justiça está a nosso favor, como disse, apenas vou perder minha mercadoria, mas recupero rápido. Então, para ficar bom para todos, podíamos conversar. Pode falar quanto.

O policial começou a refletir, chamou o colega para debater, e no final decidiram que o traficante tinha razão. Não, não vali a pena todo aquele sacrifício. Voltou, e deu início a negociação.

Em pouco menos de uma hora, alguém chegou trazendo uma mochila, a qual não estava recheada de cocaína, mas de vários maços de notas. Ao liberar o traficante e sua mercadoria, notava-se um certo constrangimento nos dois policiais.

- Não foi o certo, o correto, mas é assim que nos obrigam a agir. O cara tem razão. Não vale a pena o sacrifício, não vale a pena ser esculachado por juízes e promotores militantes. Eles que se defendam, defendam suas famílias, não contem com nossa ajuda.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

As dez pragas do Egito. Ramsés II governou o Egito entre 1213 e 1279 AC. Os faraós tinham certeza que eram deuses, e podiam dominar tudo, fazer o que bem desse em suas cabeças. Não haveria outro poder, eles eram o poder supremo na terra, e do universo. Com este pensamento, Ramsés II dominou e escravizou os hebreus. Mas, Deus não ficou satisfeito e nem aceitou a arrogância do faraó. Para forçar a libertação da escravidão dos hebreus do Egito, Deus enviou mensagens, avisando Ramsés que não era bem assim, ele deveria libertar os hebreus. Ramsés II nem ligou, e dobrou a aposta. Deus então mostrou o seu poder, enviado dez pragas ao Egito, para enquadrar Ramsés. Na primeira transformou as águas do rio Nilo em sangue. Depois enviou pragas de rãs, moscas e piolhos para atazanar a vida de todos. Em seguida uma doença que matou todo o gado, nuvens de gafanhotos, uma chuva de pedras, a escuridão, e ao fim a morte de todos os primogênitos. Ramsés certamente coçou sua careca, con...
Precisamos de uma nova Torre babel. Em Gênesis 11.1-9, encontra-se a explicação para o que ficou conhecido como “ A torre de Babel. Depois do dilúvio, toda a humanidade falava a mesma língua. Um grupo chegou a uma planície e ali resolveram criar uma cidade e um grande torre, a qual atingiria os céus. Deus considerou aquilo uma arrogância, e decidiu então confundir a linguagem. Desta forma, os construtores da torre passaram a não entender o que cada um falava, e a construção tornou-se impossível. O grupo dividiu-se e os que entendiam uns aos outros, se espalharam pela terra. Hoje parece que se repete a arrogância. As novas tecnologias praticamente tornaram o idioma único. Ninguém precisa falar mandarim, árabe, inglês ou qualquer outro idioma para saber o que foi dito. Basta usar um tradutor automático. Assim os humanos mais uma vez tornaram-se arrogantes, presunçosos, prepotentes. Querem nos convencer a qualquer custo de que a natureza erra, a biologia p...

Notícias falsas, boatos e desinformação.

No final da década de 70, um jornal popular do Rio de Janeiro passou a noticiar a existência de um justiceiro atuando na baixada fluminense, o qual identificava-se como “Mão Branca”. Naquela época, a desova de corpos em locais ermos era rotina. “Mão Branca" ligava para as delegacias, noticiava o jornal, e informava onde estariam os corpos, dizia que a matança continuaria. O trôpego jornal explodiu em vendas. Era comum aglomerações em frentes as bancas de jornais adquirindo exemplares."Mão Branca" tornou-se onipresente, e começou a aparecer em outros estaados, como em Campina Grande, na Paraíba e em Manaus. Nas conversas de botequins o principal assunto era “Mão Branca”. Quando o caixa do jornal já não cabia mais dinheiro, descobriu-se que era tudo mentira, com o único propósito de alavancar as vendas. “Mão Branca” nunca existiu. Foi uma criação do jornalista Carlos Lemos. O autor da descoberta foi outro jornalista, Caco Barcellos, o qual revelou a mentira em 1983, em u...