Foram muitos os testes. Conhecimentos gerais, matérias diversas, testes físicos. Corrida, salto em altura, salto em distância, corrida de 100 metros, e o terror da maioria: subida em corda. Em seguida exames médicos, testes psicológicos, teste de datilografia, avaliação em dinâmica de grupo. Cada etapa eliminatória. Boa parte dos candidatos foram reprovados. Enfim chagamos a academia de polícia. Outro tanto de matérias. Investigação policial, direito, defesa pessoal, estrutura da polícia, treinamento de tiro com revólver, metralhadora, espingarda calibre .12. Em qualquer etapa o candidato podia também ser reprovado.
Após a formatura e juramento de lealdade, fomos designados para uma delegacia. A decepção não nos abateu. Não havia móveis suficientes, as mesas de metal escoradas com pedaços de madeira para não cair, máquinas de escrever sem teclas, adaptadas com esparadrapos e a letra correspondente escrita a caneta. Não havia água para beber, os banheiros destroçados. Viaturas que precisavam ser empurradas para funcionar. As instalações elétricas feitas em gambiarras. Pouco importava tais dificuldades. Nos esforçamos muito para chegar aqui, e juramos defender a sociedade. Sem nenhuma supervisão fomos para as ruas para caçar bandidos de todas as espécies, investigar crimes. Um aviso: durante três anos, se errar será demitido sumariamente. Era o período do estágio probatório.
A primeira prisão em flagrante foi festejada, todos queriam saber como ocorreu. Palmas, abraços e parabéns. Logo será necessário ir depor perante um juiz, um promotor, e os advogados do réu, e seus familiares. Segunda decepção. Na sala de audiência todos sem exceção nos laçam olhares de raiva, ódio, perguntas e mais perguntas. Inconscientemente surgi a dúvida: Será que sou o criminoso?
Mesmo assim continuamos. Semana sim, semana não, enterramos um dos nossos. Diariamente os jornais nos condenam. A sociedade fixa a ideia de que somos seres extraterrestres que chegamos a terra apenas para fazer maldade. Somos perversos, gostamos de matar, bater, torturar. Um chefe de polícia afirmou: “Não trabalho com viciados em guerra”. Porém nos bastidores, nos incentivava a retomar os morros e favelas dominados por traficantes com o imenso risco de nossas próprias vidas.
Rotina em família deixou de existir. Não tem dia e nem hora certa. Final de semana, feriado, madrugadas frias em longas campanas. Na delegacia quando o cansaço chegava, juntávamos duas mesas velhas, uma pequena pilha de inquéritos servia como travesseiro. Era o preço para defender uma sociedade que nos odeia.
Quase quatro décadas depois, quando o ocaso de nossas vidas se aproxima, nosso sol está prestes a se esconder, nos reunimos para fazer um curso na Acadepol, e ao final, para aprovação, devemos apresentar um projeto de melhorias na polícia. O colega Jamie, faz a pergunta: Que polícia é esta onde os “cascudos”, calejados, ciente de todas as mazelas da sociedade, que foram pisoteados, maltratados, depois de tanto tempo, junta-se emocionados e com orgulho para falar do futuro da instituição, e formatar um projeto?
Caro amigo Jaime, encontro a resposta na história, mais precisamente no ocorrido há dois mil anos, quando um homem escolhido para salvar a humanidade, foi tripudiado, surrado e crucificado. Enquanto sangrava na cruz, proferiu as seguintes palavras: Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem. Nosso entusiasmo, nossa perseverança depois de todos esses anos, nossa vontade de continuar, de fazer o melhor, só existe em quem foi escolhido. Não escolhemos exercer a profissão de policial, fomos escolhidos, pois em sã consciência ninguém escolhe morrer pelo próximo.
As dez pragas do Egito. Ramsés II governou o Egito entre 1213 e 1279 AC. Os faraós tinham certeza que eram deuses, e podiam dominar tudo, fazer o que bem desse em suas cabeças. Não haveria outro poder, eles eram o poder supremo na terra, e do universo. Com este pensamento, Ramsés II dominou e escravizou os hebreus. Mas, Deus não ficou satisfeito e nem aceitou a arrogância do faraó. Para forçar a libertação da escravidão dos hebreus do Egito, Deus enviou mensagens, avisando Ramsés que não era bem assim, ele deveria libertar os hebreus. Ramsés II nem ligou, e dobrou a aposta. Deus então mostrou o seu poder, enviado dez pragas ao Egito, para enquadrar Ramsés. Na primeira transformou as águas do rio Nilo em sangue. Depois enviou pragas de rãs, moscas e piolhos para atazanar a vida de todos. Em seguida uma doença que matou todo o gado, nuvens de gafanhotos, uma chuva de pedras, a escuridão, e ao fim a morte de todos os primogênitos. Ramsés certamente coçou sua careca, con...
Comentários