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João Hélio e a falta de oportunidade

O assassinato do menino João Hélio, cujas circunstâncias, prefiro ignorar, talvez por não suportar os detalhes, fez surgir em todos os lugares uma montanha de opiniões a cerca da redução da maioridade penal, como também, penas mais longas para os que comentem tais atrocidades. Examinando as opiniões, seja dos leigos revoltados, ou dos digamos, “especialistas”, basicamente existem duas correntes: a primeira a favor de medidas mais duras; a segunda, contra. Aquela reconhece ainda que subjetivamente, a necessidade de maior participação do estado na diminuição da miséria, de investimentos fortes em educação, criação de oportunidades, porém, clama por imediatas providências, a fim de estancar a hemorragia. Esta discorda veementemente. Políticas públicas (que palavrinhas batidas) será o único caminho. Até lá, ou seja, até que os políticos resolvam não roubar tanto, diminuir suas benesses com o dinheiro público, enxergarem que milhões gastos com propaganda de nada adianta, vamos ter que conviver com a possibilidade, muito viável, de novos crimes acontecerem, e sem possibilidade de punição adequada. Será que mesmo com o descaso dos nossos políticos, a falta de oportunidade para criminosos menores de dezoito anos é total? Vamos ver. J é policial, e sócio de uma pequena empresa. Um dia o gerente ligou quase em prantos. Necessitava de ajuda. Tinha um sobrinho de dezesseis anos, o qual acabará de sair do Instituto Padre Severino. Foi preso em uma boca-de-fumo portando um fuzil. A liberdade fora condicionada pelo juiz. R, o sobrinho, deveria entrar na escola, arranjar um emprego e informar a justiça. O único local onde seria possível trabalhar era a empresa onde o tio era gerente. J espantou-se. Como posso fazer isto? Sou policial, todos os dias enfrento traficantes, já prendi centenas deles. Como posso colocar para trabalhar ao meu lado um deles? O gerente implorou, pediu por tudo. J continuou inflexível. Argumentos não faltavam. Como posso aumentar a folha de pagamento. Você sabe bem das nossas dificuldades. Para cada cem reais pagos a um empregado, temos que pagar cento e cinco para o governo. E os impostos cada vez mais altos, os clientes inadimplentes? Não. O gerente resolveu esperar J na empresa. Apresentou R e quase em lágrimas pediu novamente. J não resistiu. Resolveu fazer uma enquête junto aos demais empregados e aos sócios. Todos foram contra. Nenhum, nenhum mesmo foi a favor da contratação. Conversando com R, J não gostou de nada. O olhar para baixo, a voz quase imperceptível, o aperto de mão mole. R não encarava as pessoas. O que você sabe fazer? Nada. J ficou de pensar e discutiu o assunto no dia seguinte com o gerente. Veja só: todos foram contra a contratação do seu sobrinho, e de mais a mais ele não sabe fazer nada, além de nem escrever direito. Como posso empregar alguém assim? O gerente retrucou. Ele vai voltar para a escola. Pode começar como auxiliar técnico. Carrega as ferramentas, escada, enfim, faz o trabalho pesado. Ao mesmo tempo mandamos fazer um cursinho de iniciação técnica. Dá essa chance, por favor! Comovido, J concordou e distribuiu um e-mail: Estou contratando e a responsabilidade é minha. Vamos correr o risco. Se esse rapaz se encaminhar na vida por menos lucro que empresa tenha, valerá a pena. Assim foi feito. R começou no trabalho, sob regras rígidas. Seu horário não poderia ultrapassar às 17 horas para que fosse a escola. A freqüência da escola deveria ser apresentada todas as semanas. No prazo de noventa dias ele deveria conhecer os equipamentos técnicos. J disponibilizou uma verba e matriculou R em dois cursos. Dois meses depois, R não apresentava nenhum progresso. Chegava sempre fora do horário, obrigando os outros a espera. Pedia para sair cedo e na maioria das vezes demonstrava que não havia dormido. J resolveu conferir na escola a freqüência de R. Desconfiou dos carimbos. Não foi nenhuma surpresa descobrir que R esteve apenas duas vezes na escola e nunca mais voltou. Chamado a dar explicações, baixou a cabeça e nada falou. J advertiu que seu prazo estava se esgotando. Caso não houvesse progresso, iria comunicar ao juiz e seria dispensado. Na semana seguinte R não apareceu para o trabalho. J pensou: ele desistiu. Horas depois, J recebeu um telefonema urgente da empresa. Um cliente desejava contato. Aconteceu um problema grave. J ligou para o cliente. Seu empregado, R, esteve aqui para concluir o serviço. Recolher as ferramentas e sobra de material. Porém, levou vários objetos, além dos vales-transportes dos porteiros, dinheiro e um relógio. Em suma, seu empregado nos roubou. Esbravejou o cliente. Gostaria de uma providência urgente, concluiu. J ligou imediatamente para o gerente e este ouviu calado. Uma hora depois, o gerente retornou a ligação. Encontrou R, já de volta a boca-de-fumo, e este confessou o furto. Quando entregou a carteira de trabalho de R ao seu tio, J ainda lamentou. R hoje faz parte de uma quadrilha que rouba carros.


Aurilio Nascimento

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